A história da marcha e o debate que moldou raças
O livro examina o desenvolvimento histórico de um paradigma e seus impactos sobre os andamentos marchados. Destaca um movimento de resgate ocorrido no Brasil do século XIX. Essa mudança reconciliou suavidade e desempenho, culminando na valorização da chamada marcha trotada.
O que há com este país que tanto fascina e tanto contraria? Por que aqui, sob este sol vertical e nesta terra de extremos, preferiu-se a marcha ao trote, a suavidade à precisão? Teria sido o calor? As distâncias? Ou seria, quem sabe, uma herança antiga, medieval, trazida nos porões das naus desbravadoras?
“Digo logo: há assunto que parece de ferragem e osso, técnica, conta, medida, ângulo, mas por baixo dele corre um rio mais fundo, rio de gente, de costume, de mando e de fama. Assim é este: marcha e trote, que muitos tratam como se fosse só martelo e prego do corpo do cavalo. E não é só. É também palavra, é também valor, é também a conversa comprida que o tempo vai contando até virar certeza.”
Flávio Fernandes de Araújo é agrônomo, bacharel em direito e escritor. Na pecuária, seu principal destaque são os mais de 30 anos de dedicação à seleção da raça Mangalarga no Haras Catedral (GO), com foco no desenvolvimento de cavalos rústicos, resistentes e funcionais perfeitamente adaptados ao Cerrado brasileiro.
Este livro percorre cerca de 2.500 anos de história, desde os ensinamentos clássicos de Xenofonte, passando pela tradição militar da antiguidade, pelas escolas equestres medievais, pelos manejos coloniais ibéricos e pelas adaptações práticas do Novo Mundo, até chegar ao surgimento do cavalo Mangalarga em São Paulo, no contexto do século XIX.
Séc. IV - III a.C.
Inaugura a literatura equestre com o tratado Peri Hippikês, propondo uma equitação baseada na parceria, na psicologia e na leveza. Separa a técnica da brutalidade, estabelecendo que o cavalo deve obedecer com alegria e não por força bruta, ideais que possivelmente influenciaram a cavalaria de Alexandre, o Grande.
Séc. III - II a.C.
O império adota um pragmatismo militar focado na infantaria pesada (as legiões) para sua expansão territorial. A cavalaria torna-se uma força secundária e a visão do cavalo como parceiro artístico dá lugar à eficiência bruta, fazendo com que o pensamento clássico de Xenofonte entre em um longo eclipse histórico.
Séc. IV d.C.
A Batalha de Adrianópolis (378 d.C.) decreta a quebra da hegemonia da infantaria romana perante a letalidade da cavalaria dos godos. Esse terremoto geopolítico prova que o coração do exército romano podia ser aniquilado, recolocando o cavalo no centro absoluto do campo de batalha ocidental.
Séc. V - XV d.C.
Surge o cavaleiro couraçado, onde o equino é transformado em uma plataforma móvel de choque. A equitação foca na dominação e controle absoluto. Consolida-se a divisão por "tipos" funcionais: o poderoso Destrier para a guerra e o confortável Palafrém, cavalo de marcha que se torna símbolo de prestígio para viagens e cerimônias reais.
Séc. XVI - XVIII d.C.
As armas de fogo tornam a armadura medieval obsoleta, libertando o cavalo da guerra para os picadeiros das cortes europeias. O humanismo resgata a filosofia de Xenofonte, e as novas escolas de Alta Escola passam a cultuar a elegância, a reunião e o trote cadenciado. Como consequência dessa revolução estética, a marcha clássica é marginalizada na Europa.
Séc. XVI - XIX d.C.
Na contramão europeia, a matriz ibérica do Palafrém sobrevive e floresce nos trópicos. No Nordeste açucareiro, o "cavalo de gesto" era exibido nas Cavalhadas como símbolo de nobreza. Com a crise do açúcar e o Ciclo do Ouro, essa base genética marcha para as Minas Gerais, onde o apelo visual cede lugar à valorização máxima da "maciez" e utilidade no transporte.
Séc. XIX - XX d.C.
A genética nordestino-mineira chega ao sertão de São Paulo com a família Junqueira. Diante de novas necessidades, como agilidade, velocidade e galope, ocorre uma ruptura cultural: a transição do paradigma da pura "maciez" para o do "conforto" funcional. Nasce a marcha trotada e consolida-se o Mangalarga Paulista, o primeiro cavalo do país moldado com identidade padronizada de sela.
Edição de lançamento limitada. Um livro para colecionar e preservar nossa história.