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Do Palafrén ao Mangalarga Pág. 72

A pólvora tornou o cavaleiro obsoleto; Cervantes o eternizou como uma figura trágica e ridícula. Foi nesse vazio, criado pela morte do cavaleiro guerreiro, que a equitação pôde finalmente se libertar do peso da armadura e renascer, no Renascimento, como a arte que conhecemos hoje.

A sátira não é apenas literária – é cultural. Cervantes mostra que o mundo moderno, racional e bélico (com pólvora), já não tem lugar para cavaleiros que vivem com honra e gestos simbólicos.

A pólvora matou o cavaleiro no campo de batalha, e Cervantes o ridicularizou na literatura.

FIM DE UMA ERA, NASCIMENTO DE OUTRA

A revolução cultural estava em curso. A pólvora, em sua fúria impessoal, não aniquilou apenas o guerreiro medieval; ela atacou a própria estrutura de um modo de vida, deixando a nobreza em uma profunda crise de identidade. Se sua função não era mais a guerra, qual seria? A resposta foi encontrada não na reinvenção, mas na sublimação. A guerra real, agora entregue aos canhões e à infantaria, foi transformada em um espetáculo grandioso, e o campo de batalha deu lugar ao teatro equestre.

O CENÁRIO DESSA TRANSFORMAÇÃO FOI A TRANSIÇÃO DAS JUSTAS PARA AS CAVALHADAS.

As Justas medievais eram a liturgia da violência. O ar cheirava a suor, couro e medo. O som era o estrondo de lanças se partindo contra armaduras, o grito dos homens e o baque surdo de corpos caindo no chão. Era um ritual de sangue que testava a capacidade de um homem para...

Do Palafrén ao Mangalarga Pág. 81
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DA GUERRA À ESCOLA:
O CAVALO GANHA
NOVA FUNÇÃO

A partir do sec. XIV, a eficácia das armas de fogo (mosquetes, arcabuzes, canhões) tornou as cargas pesadas de cavalaria militar menos decisivas. Os cavaleiros começaram a “despojar-se” de armaduras e a buscar manobrabilidade em um campo de batalha cada vez mais dominado por projéteis. Esse vácuo tático liberou o cavalo da função estritamente bélica, abrindo espaço para seu uso nas cortes, em espetáculos e no refinamento técnico da equitação.

No Renascimento, o movimento humanista impulsionou a busca pelos textos originais da Antiguidade. Em 1516, Frederico Grisone, talvez influenciado pelos Bizantinos, publicou pela primeira vez em grego a obra de Xenofonte, seguida da edição Latina de 1534 – um marco que ressuscitou como arte de harmonia e leveza. A imprensa de Gutemberg e as traduções vernáculas disseminaram esses conceitos nas escolas equestres.

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